Opinião

Um PT entre a cruz e a espada: ficará à sombra de Lula ou buscará a renovação em João Pessoa?

A eleição de Lula atraiu ventos favoráveis ao PT. Embora tenha vivido forte crise reputacional em função de uma série de escândalos, a exemplo do mensalão e da Lava Jato (mesmo que as condenações desta tenham sido anuladas pelo STF) , a legenda continua crescendo, atraindo até prefeitos do PL de Jair Bolsonaro.

Dados dos 26 diretórios estaduais do país dão conta de que o PT tem hoje 234 gestores municipais contra os 183 eleitos em 2020. São 51 a mais. Avanço puxado pelo Piauí, Ceará e Bahia, estados comandados por governadores petistas. Filiações pontuais também foram registradas no Rio Grande do Norte, governado pela paraibana Fátima Bezerra, Rio de Janeiro, Maranhão e Mato Grosso do Sul.

O embarque no PT não é gratuito. Contar com um Lula no palanque é uma mão na roda para quem busca a reeleição ou deseja fazer um sucessor.  Se é assim pelo país afora, por que na Paraíba seria diferente?

É aí que pegam as diferenças regionais e as peculiaridades de eleições tão domésticas. Há muito o PT deixou de ser competitivo pelas bandas de cá. Foi deixando de marcar posição tornando-se uma mera legenda de suporte. Em 2020 elegeu apenas um prefeito, o Olivânio, de Picuí, no Cariri paraibano.

O PT bem que poderia surfar na onda da eleição de Lula, lançar candidatura própria nas cidades-polo do Estado e ampliar seu território para fortalecer o projeto de reeleição do próprio Lula em 2026. É o que o Diretório Municipal  (DM) de João Pessoa defende, mas entre a vontade do DM local e a decisão do Diretório Nacional  (DN) há uma distância gigante.

Na lógica dos caciques petistas não basta quantidade, tem de ser competitivo. É o que diz Resolução do PT aprovada em 08/2023 para as eleições 2024: o PT irá “investir prioritariamente nas cidades com maior densidade político-eleitoral, destacando-se aquelas com maiores chances de vitória, através de pesquisas e análises do processo pré-eleitoral, bem como a competitividade de cada candidato, considerando a capacidade de construção de alianças.”

Repare na última frase. Ela mata o que vem antes. Alianças serão priorizadas.

Isso reforça a posição reiterada do presidente do PT na Paraíba, Jackson Macêdo, ao lembrar que a Executiva Nacional do partido decide as candidaturas petistas nas capitais – à revelia do DM – e que mais vale uma “sólida aliança popular e democrática que promova a recondução do Governo Lula em 2026” que priorizar 2024.

Essa mensagem é ratificada a todo instante no texto. Reforçar o PT (e a esquerda), para a Executiva Nacional, é “consolidar uma forte Frente Democrática e Popular no país”.

Daí se tira a provável aliança do PT na Paraíba com o prefeito de João Pessoa Cícero Lucena (PP), que tem o apoio do PSB de João Azevêdo. Lembrando que o PSB é o partido do vice-presidente Geraldo Alckmin. Cícero nem precisou migrar para uma legenda de centro-esquerda para que esse enredo tomasse corpo.

Em tempo: quando a colunista que vos fala escreveu sobre essa possível “casadinha” cerca de um ano atrás, alguns radicais me chamaram de tola e desinformada. Afirmaram categoricamente que a esquerda jamais apoiaria Cícero Lucena. Os dias mostraram que a lógica do pragmatismo político não conhece o romantismo ideológico.

Há outras variáveis

Não há martelo batido sobre essa questão. Não ainda. Isso porque dentre as diversas correntes internas do PT local há um ponto pacífico: a necessidade de candidatura própria. A maioria alega que apoiar o projeto de reeleição do atual prefeito é dizer amém para centrão, o que vai na contramão da ideia de fortalecimento defendida pelo DN.

Um partido em crise

O PT vive em crise. Há quem diga que os conflitos são produto de um partido heterogêneo e democrático. Faz sentido. Todavia, diferenças demais atrapalham. Recentemente, as prévias da sigla foram até suspensas depois que o deputado estadual e ex-prefeito Luciano Cartaxo renunciou à disputa interna para concorrer a eleição em João Pessoa. Restou a também deputada Cida Ramos, que, embora tenha grande apoio de correligionários, não goza do capital eleitoral de Cartaxo. Sem competitividade, terá apoio do PT nacional?

Impacto

A renúncia de Luciano Cartaxo traz implicações para o campo da política local. Com poucas opções disponíveis é provável que ele busque uma aliança com Cícero Lucena. Isso fortaleceria consideravelmente a candidatura à reeleição do atual prefeito. Será?

Viabilidade eleitoral

Com um desempenho modesto nas pesquisas até o momento, Cida Ramos precisa demonstrar rapidamente que sua candidatura pode ganhar tração e representar uma alternativa viável para o eleitorado, o que exigirá muita habilidade política e poder de convencimento. O relógio está correndo.

Voltando à Cartaxo

Ouvi dizer que, apesar de Cida, se o PT tiver de lançar alguém em João Pessoa, esse alguém seria Luciano. Suponhamos que isso ocorra. O ex-prefeito da capital terá um cenário duro pela frente. Pesquisas colocam Cícero na dianteira da corrida eleitoral. Ainda tem Ruy Carneiro (Podemos), que saiu da eleição passada com votação expressiva (59.730 votos) e que está com suporte do União Brasil, do MDB e do PRD (resultado da fusão do PTB e do Patriotas) em 2024.

Em um segundo turno sem Luciano…

… com quem ficaria o PT? A neutralidade, certamente, não seria uma opção. Façam suas apostas.